sábado, 27 de agosto de 2011

O ídolo


De repente estava eu ali. No palco. Olhei para frente e uma multidão insandecida a gritar:
- Mais um, mais um!
Olhei para trás e músicos com os mais diversos instrumentos me olhando, como que a esperar um sinal para a próxima música. Uma luz de foco quase a me cegar. Eu mal conseguia enxergar a plateia, mas percebia que era de milhares.
- Meu Deus, o que será que eles esperam que eu cante?
Pensei em correr, sumir dali! Mas tinha que resolver em poucos segundos qual a atitude mais correta. Parecia-me que qualquer gesto impensado ou mal-interpretado poderia resultar em um desastre.
- Vou me socorrer com meus companheiros de palco!, balbuciei.
Vi que ao lado esquerdo, como aguardando para entrar, estava a Daniela Mercury. O que ela iria cantar comigo? O que eu estava fazendo ali? No lado direito, Chico Buarque e Caetano Veloso acenavam.
- Devo ser bom, hein?
Veio-me uma ideia: correr até um dos músicos e pedir para que ele fizesse um solo, enquanto pudesse sair do palco e descobrir que apito eu tocava. Dito e feito. Corri. A luz de foco me seguindo, de modo que me tornasse a única pessoa visível naquele cenário. A multidão enlouqueceu mais ainda. Notei que estava de sandálias.
- Deus do céu! Tenho horror de sandálias!
Procurei o guitarrista, que só teve a imagem exposta quando me aproximei, com a maldita luz de foco. Ele deu um o.k. e saí espavorido, cuidando para não me enredar nos colares (!). Precisava esclarecer isso.
Fora do palco um pessoal que julguei ser da produção, disse-me:
- O que houve, cara? Volta lá!
- Eu vou trocar de roupa!
Não estava nos planos. Azar.
Localizei um camarim com meu nome à porta.
- Tiro as sandálias, os colares, me visto e sumo daqui!
Surpresa: sobre a mesa diversas fotos. Numa o Roberto Carlos me entregava um disco de ouro. Noutra, Martinho da Vila e eu. Numa pequena, cantava com o Engenheiros do Havaí. Ao lado, a Simone, o Zeca Pagodinho e eu. Abaixo, o Borghetinho comigo.
- O que eu canto, afinal? Agora mesmo que vou embora!
Quando pensava em me dirigir para a rua, um dos assistentes disse:
- Todos da banda fizeram solos! Volta lá que a multidão quer invadir. Não vai dar para segurar!
Em nome da ordem, para o bem de todos e felicidade geral da nação, lá me fui.
Entrei no palco sem ter o que dizer, afinal nem sabia qual meu repertório, e gritei:
- Brigaduuu!
A multidão explodiu em aplausos e pensei:
- Vou me jogar na plateia, igual aos filmes, e dou por encerrado o espetáculo!
Assim fiz: dei um salto e voei. Caí da cama e acordei.
- Que droga, bem agora que estava gostando!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

E eu vou...


Nada há que me prenda
Nada há que me renda
E isso é mesmo estranho...
Porque sou livre, esguio
Deter-me é um desafio
Imenso, sem tamanho...

Mas se ela acolhe-me em seus braços
Atrai e direciona os meus passos.

E eu vou...


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Sob o Sol


Ao longe batem carimbos descoordenados...
Grampeiam folhas lisas e senhoras de si...
Silenciam em filas cinzas, desbotadas
Chacoalham moedas, misturam notas
Que escravizam as mentes inquietas...

Lá nada há que me atraia
Apenas caminho descalço sob o Sol
Na areia da praia

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

De mãos dadas...


A espera se torna mais breve
O andar fica mesmo bem leve
Parecem fáceis todas as jornadas.
Basta que andemos de mãos dadas...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Novos ares...


Achava-me livre em amizades
Que desinteressadas pareciam ser
E nas quais por muito tempo acreditei.

Quando acentuaram-se as falsidades
Que eu parecia querer não ver
Fiz mesmo uso de minha liberdade e voei...

Leve, circulo pelos lugares
Solto, respiro novos ares...

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Em segredo


Olho discreto
Seu olhar secreto
Que finge não me ver...

Depois já disfarço
Em silêncio desfaço
Como se pudesse esconder...

Linda...

sábado, 6 de agosto de 2011

Eu sou assim


Eu sou a terra
Maltratada pelo terror da guerra
Quando fizeram pisar o meu chão.
E guardo um passado de dor e solidão.
Eu sou a árvore que plantaram
Mas esqueceram de regar.
Meus galhos, teimosos, vingaram
Por minha vontade de viver e de lutar.
Estou nas gramas rasteiras
E nas águas das cachoeiras.
Se de tudo hoje sou nada
É fiquei no pó da estrada
Que não queres respirar.

Eu resisto o passar do tempo
Forte, forte como o vento
E se fraquejo comigo
Sou humilde e faço
Um pedido:
Me deixem ser assim
Que vou firme até o fim.
Eu aguento o repuxo
Por que mais do que tudo
Eu sou gaúcho!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Eu faria...


Usaria até parênteses (bem assim)
Expressões cheias de ênfases (Onde?! Claro! Sim!)
Faria um texto muito pontuado (para dar ao mesmo mais sabor)

Para lhe falar da minha paixão (que não é tudo)
Para gritar com emoção (que não é tudo)
Ou então ficar calado (para que saiba que é amor...)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Coincidência?


Parecia ser coincidência
Uma situação não planejada.
Mas seu olhar de inocência
De inocente não tinha nada...

Mas gostei...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Delírio



À noite, ao longe, na rua
Tive a impressão de ver a imagem tua
A entrar naquele bar, nosso descaminho.
Corri, mas vi que não era
Foi mais um delírio, uma quimera...
E segui a andar sozinho.